sábado, fevereiro 28, 2004

os dias intemporais
cheiramos os últimos frios do Inverno.
saltaremos, brevemente, para os dias orvalhados e calorosos.
nesta renovação, questionamos o estado da alma.
recôndita, sublime, vazia, quase sempre.
a ponte do Benjamim é a minha ponte: na outra margem, figuram as mãos vazias de ti...

sexta-feira, fevereiro 27, 2004

a perda da inocência
quase o vagar intemporal
naquele dia
Lorca inundou o Sol com a escrita do corpo sonhado
o orvalho rugoso
enxameado
de dias perenes
assim o teu amor

terça-feira, fevereiro 24, 2004

depois
a sombra nocturna
corpo por madrugar
reinventado
amargurado
Lorca antes escreveu o Sol de Granada
Jesus também
quase texto
do silêncio do dia.
dos dias.
do pressentimento nocturno: oblíquo.
como o rio que corre: a ponte suspensa no vácuo matinal.
hoje
hoje, é dia de tirar a máscara.
é dia de ser alegre e parvo.
é dia de fingir que se brinca ao Carnaval.
é dia do fingimento.
afinal, é dia de recolocar a máscara...
anos 80, (5)
a canção contra a morte: naquela noite, Zeca levantou-se e tornou a levantar-se...
o Coliseu acompanhou-o nessa última luta; recusou a oferenda: só, impoluto, cantou, solidário e só...
Abril foi revisitado nesse concerto de despedida...
anos 80, (4)
a descoberta do corpo feminino: a instauração do teu corpo noutro corpo.
outro deserto no oásis: escolhemos o orvalho solar, recusámos a via escura- sem retorno?
ainda: fazer amor ao som de Edith Piaf: invenção do texto de Sophia...
anos 80, (3)
Sousa Dias: professor, filósofo, portuense e portista.
não ensinava Filosofia: ensinava a pensar filosofia.
não tinha carta de condução; as suas tardes eram passadas a ler- tendo por companhia algumas ovelhas e cabras...
diria que foi uma das pessoas mais espantosas que conheci...

segunda-feira, fevereiro 23, 2004

anos 80, (2)
blue velvet: o amor, a devastação interior- por uma mulher impossível...
o jovem aprende que a Máfia pode vencer sobre a emoção: o regresso da normalidade?
também a fotografia do filme- quase de uma beleza insuportável...

domingo, fevereiro 22, 2004

anos 80, (1)
the smiths
: o lirismo transcendental: o romantismo borbulhante...
Morrisey levou-nos, naqueles anos, ao saber primordial: da canção nasce a música, da música nasce a canção...
a simplicidade e o romantismo como aliados das guitarras: estas canções não morrerão nunca...
colcorinho
a breve escalada
tortuosa, torturante
o quase céu almejado, evanescente
toca o azul de Delfos
assim morreria Lorca no colcorinho

sábado, fevereiro 21, 2004

colcorinho
orvalho rasurado, inatingível
as pedras, testemunhas
do soluçar dos corpos
do frémito a 1242
a descida lenta
do amor e dos poemas possíveis
os deuses amaram-nos
no colcorinho da nossa memória
há muitos anos...
há muitos anos, fui feliz.
quando tinha os meus avós.
Duarte e Maria.
recordo as manhãs de maresia.
recordo os braços fortes do meu avô.
recordo o olhar doce da minha avó- a mulher da minha vida...
era puto.
tinha cinco, seis, sete anos...
nunca esquecerei aqueles dias.
os meus dias felizes...
depois do amor, isto é, antes do amor,
sempre clamei pelos Deuses.
fugiram-me!-sempre...
não me arrependo de ter amado uma mulher no Colcorinho...
1242 metros de amor...
sei que há pessoas que nunca alcançarão estes mistérios da vida.
ou da morte...
diria o Pedro: se eu fosse um dia o teu olhar...

quinta-feira, fevereiro 19, 2004

João Vale e Azevedo
sofre tanto, este coitado...
e, ainda por cima, é lampião...
(agruras da vida...)
poema a um deus menor
do trágico dia
rezou a cratera de Delfos
e escreveu para Lanzarote
os teus olhos
esculpidos na pedra da jangada do esquecimento
rodearam a linha do corpo ausente
ainda que amado
o futuro impõe-se aos deuses
quero ser feliz
escreveu o poeta

quarta-feira, fevereiro 18, 2004

noite
quase rara.
o teu corpo no poema.
em branco.

terça-feira, fevereiro 17, 2004

dies irae
dies irae...
o que é a noite
a dolorosa investigação do vazio.
do que não vale a pena.
lúcido, quase Álvaro de Campos.
porque as pessoas são vazias: disformes...
como diria João de Melo: o meu mundo não é deste reino...
vertigem
o que é que esperamos da vida?
da existência?
amar uma mulher?
amar os nossos filhos?
ler?
escrever?
beber cerveja?
ver o Sporting?
desafiar o instinto perene?
último-quiçá?
há sempre uma ponte à espera do sonho.
do nosso sonho.
como a água que corre.
no momento, instante e fugaz, da felicidade eterna.
como diz a canção: forever young...

domingo, fevereiro 15, 2004

Lisboa, Porto, paisagens...
discutem, certas mentes elitistas, o confronto entre o poder centralista da capital e o saloio provincianismo portuense.
desconhecem, essas mentes, a verdadeira revolução que falta acontecer em Portugal: descobrir o país profundo, autêntico, real: Beiras, Alentejo, Trás-os-Montes.
desconhecem(?), essas mentes, o verdadeiro roubo perpetrado nestas regiões há muitos séculos: o investimento público é nulo, a melhoria das condições de vida, quase nula...
(resta-me o consolo de não frequentar locais manhosos como o IC19 ou a VCI...)
ausência...
Pedro
desculpa a ausência no teu (nosso) concerto.
que o teu momento perdure (e)ternamente...

sábado, fevereiro 14, 2004

o dilúvio na noite
somos seres rasurados, rugosos, repletos de reentrâncias.
desconhecemos os deuses: ambicionamos habitá-los no corpo, e na mente, do amor de uma mulher.
sabemos que esse sonho nunca se concretizará.
mas, devido à nossa condição humana, esta viagem nunca terá fim...

domingo, fevereiro 08, 2004

Margarida, Daniela,
tenho um amigo: chama-se Luís Castilho e mora no Céu.
o meu amigo Gama tem uma filha adorável: chama-se Daniela e é vizinha do meu amigo Luís.
eu e o meu amigo Gama temos o mau hábito de falarmos de muitas coisas: amor, filhos, amizades, mortes, nascimentos...
sei que o Luís já desenhou a Daniela.
ele é um artista- dos bons, acrescento.
a Daniela vive, também, neste nosso mundo.
hoje, por exemplo, foi baptizada- no ser de e da Margarida...
sei que não entendem estas coisas.
mas sei que o Gama, o Luís e a Daniela gostam de me ler...

sábado, fevereiro 07, 2004

Pedro
tudo o que eu te dou,
Pedro,
é a noite pressentida.
é a noite anunciada, quase orvalhada.
como cantas: foram tantas as noites sem dormir, Pedro...
(um homem também chora quando assim tem de ser...)
a leveza dos dias ausentes
imagino Pessoa amando Ophélia no momento de olhar a folha em branco.
no momento de ver o copo vazio.
imagino Pessoa de olhar neutro: a folha já não é alva- foi desflorada por uma corrente impetuosa- vinda de Glasgow, quem sabe, de Lisboa.
imagino Ophélia a amar uma pessoa ausente.
diria: o amor não é ridículo.
da espuma da noite
o vago querer do futuro.
sabemos que o Nilo é o espaço neutro de tentações sublimes.
lá, habita a espuma da noite...
A mulher em chamas
vi este filme no Quarteto, nos princípios dos anos 80.
revejo-o, agora, na RTP.
vinte anos depois, mudaram os olhos, os ângulos, a forma de ver cinema.
onde se esperava o frémito existe, agora, um imenso torpor...

quinta-feira, fevereiro 05, 2004

da espuma da noite
fraga do torpor anunciado.
relembramos os picos eternos. rumorejantes- ainda que olvidados...
sentimos a vaga dos corpos; o frémito anunciado- pressentido...

terça-feira, fevereiro 03, 2004

da espuma da noite
quase o pendor carnal: fogo do húmus por inventar.
a certeza das vias pessoanas brinca aos Novembros de 35; quase nada o dia 30...