segunda-feira, janeiro 31, 2005

a escrita nua

de manhã, a escrita é nua.
o corpo silencia o húmus da alma e das laranjeiras.
penso em Eugénio no leito da poesia - a sua morte - assim como a de Sophia.
e penso na felicidade dos seus versos, brancos e puros.
um dia, Eugénio, encontrarás Sophia...
O MAR


Antes que o sonho (ou o terror) tecera
mitologias e cosmogonias,
antes que o tempo se cunhasse em dias,
o mar, sempre o mar, já estava e era.
Quem é o mar? Quem é o violento
e antigo ser que destrói os pilares
da terra, e é só um e muitos mares,
e abismo e resplendor e azar e vento?
Quem o olha vê-o pela vez primeira,
sempre. Com o assombro tal que as coisas
elementares deixam, as formosas
tardes, a lua, o fogo da fogueira.
Quem é o mar, quem sou? Sei-o no dia
que virá logo após minha agonia.


Jorge Luis Borges

domingo, janeiro 30, 2005

Paula Rego, há portuguesas, e mulheres, assim

fui a Serralves.
vi a monstruosa mostra de Paula Rego.
a enormidade da recusa de Salazar; o poder, ainda que escondido, da Mulher; as pernas abertas para o mundo: vida, vidas emergentes.
penso: qual a ligação entre Sophia e Paula Rego? é óbvia: a recusa de correntes, o imenso amor pela Liberdade: arte poética - a de Paula Rego; arte pictórica - a de Sophia.
vi o Portugal cinzento, fatimista, futeboleiro, rasca, de Salazar; Paula Rego desafia-nos a enfrentar o mundo com os nossos fantasmas e medos. porque, disse, «pinto para dar lugar ao medo».

CONTO DE INVERNO

(A Silvina Ocampo)


A luz do vento entre os pinheiros, - compreendo
estes sinais de tristeza incandescente?

Um enforcado balança-se na árvore marcada com a cruz
lilás.

Até que conseguiu deslizar fora do meu sonho e
entrar no meu quarto pela janela, com a cumplicidade
do vento da meia-noite.

(tradução de José Bento)


Alejandra Pizarnik

quarta-feira, janeiro 26, 2005

este ar que nos cerca

sensível e curioso. quase gélido. do norte, chega o vento misterioso - ainda que solar. habitamos, por agora, as laranjeiras de Eugénio.

domingo, janeiro 09, 2005

da tarde de Inverno

o ar é quase rarefeito.
como a alma.
há tardes que nos convocam para o mundo:
ternas, quase sonhadoras, tremendamente solitárias.
como a chuva que não cai no orvalho de eugénio.
na areia de sophia.

sábado, janeiro 08, 2005

o jogo eterno...

Sporting-Benfica: irracionalidade pura, puro devaneio, pura arte à solta...
já vi este filme vezes sem conta: o Sporting dá um banho de bola e os lampiões ganham...

quinta-feira, janeiro 06, 2005

pedro, inês

o bailado de Olga Roriz.

o olhar de Pedro: tecido de morte, fado amaliano - uma estranha forma de vida...

a dança dos corpos: a água como libertação...
Lundi Matin

vi ontem este filme genial.
o burlesco começa na sala: 10 pessoas, 10 resistentes à indigência cultural...

o homem chega a Veneza em busca do e de espaço, do sonho, da libertação; mas, como sabemos, somos nós que protagonizamos a corrente interior: há muito que as revoluções feneceram.

a mulher como ser omnipresente e tutelar: ditador, diria.

a moral do politicamente correcto no impedimento de fumar: se eu quero fumar, o outro não pode impedir-me - dispenso moralismos estatais, imperiais e médicos...

o sonho acabou? a revolução acabou? enquanto se fizerem filmes assim, o sonho, e o fumo, resistirão...

quarta-feira, janeiro 05, 2005

3 minutos de silêncio

3 minutos de silêncio no mundo e para o mundo.
gostaria de vivê-los no Colcurinho - onde o silêncio se cheira e vive...

terça-feira, janeiro 04, 2005

rigor quase

da noite, Gabriela, fugiste. dessas noites do cabo Espichel, restam as magnólias: claras, brancas, solares, etéreas. desconheço se Eugénio pensou em ti - quando fazia amor com as palavras e sebes. desconheço, ainda, se o teu corpo pressentiu a vaga da areia solar. desconheço, ainda, se passeias no ventre ausente - mas será importante este texto...?