domingo, fevereiro 20, 2005

À imensa maioria

Aqui tendes, em canto e alma, o homem
aquele que amou, viveu, morreu por dentro
e num belo dia desceu à rua: foi então
que compreendeu: e rasgou todos os seus versos.

Assim é, assim foi. Saiu numa noite
lançando espuma pelos olhos, ébrio
de amor, fugindo sem saber para onde:
onde o ar não cheirasse à morte.

Tendas de paz, olorosos pavilhões,
eram seus braços, como chama ao vento:
vagas de sangue contra o peito, enormes
ondas de ódio, vede, por todo o corpo.

Aqui! Vinde! Ai! Anjos atrozes
em voo horizontal cruzam o céu:
horríveis peixes de metal percorrem
as costas do mar, de porto a porto.
Eu dou todos os meus versos por um homem
em paz. Aqui tendes, em carne e osso,
minha última vontade. Bilbao, a onze
de abril, cinquenta e um.

Blas de Otero