terça-feira, março 29, 2005

improviso sobre a solidão

nesses tempos onde a memória era essencial
vivemos o orvalho matinal
sei que são versos recorrentes
a vida é a subida ao cume amoroso
os amantes sabem destas coisas solitárias
Inglês e outras minudências...

Sócrates, na Educação, tem um arranque guterrista: medida politicamente correcta, não-aplicável ao Sistema, empregadora q.b de professores recém-formados...

esquece, apenas, o essencial: a transformação revolucionária das condições onde o 1ºCiclo vegeta - as escolas, muitas, são do Estado-Novo...

os governos mudam, as equipas mudam; os putos e os professores vivem, quase eternamente, nestas condições de merda...

domingo, março 27, 2005

Páscoa, improviso,

na tumba do bicho
herodes salva a cigana fátima
nesses dias da tormenta e do ciclone
jesus invadiu as ruas
e salvou-se para sempre

domingo, março 20, 2005

Everest, Blue...

João: enfrentar os comissários de serviço é um serviço que prestas à Lusofonia - o que quer que isso seja...
dia(s) do pai

ontem, dizem os entendidos, foi dia do pai. passei-o com a minha Jéssi boa - a menina que me afaga a ausência dos dias. a minha Cole (Nicole) insiste em permanecer distante - não entende o pai, fruto, penso, da adolescência por que passa. não me divorciei das minhas filhas - infelizmente, há adultos que não percebem estes sentimentos... tudo isto é revoltante: no divórcio, a mãe, quase sempre, fica com o poder sobre, na linguagem enternecedora de Júlio Machado Vaz, as crias.
a Justiça em Portugal é vil, rasteira, soez e fascista.
porque eu sinto os abraços da minha Jéssi - não é o tribunal que conhece os meus afectos, as minhas paixões, os meus amores, os meus difíceis amores...
Keane

música pura, límpida, orvalhada, infantil.
adoro estes putos, estes temas, estes sons - devolvem-me à pureza inicial, intemporal.
as melodias estão de volta...
como anjo e demónio morto quero seguir pelas ruas

no tempo ulterior
meu amor visitámos o tempo dos deuses
o rio era largo desenvolto perene
a tia deu-nos a chave de Delfos
questionámos a seiva do matinal orvalho
a carta de toranja seria a seiva sonhada
mencionarei meu amor Lorca Granada óbidos Alcobaça
esses tempos confesso
os vivi

quarta-feira, março 16, 2005

canção de um futuro triste

sensíveis esses tempos das filhas
o amor devora o lado oculto do sangue
fragilizados ascendemos ao colcorinho
os deuses retrataram esse amor eterno
não nasce o arrependimento
as laranjas de eugénio sugam o ventre de sophia
fui feliz nas águas pendentes

segunda-feira, março 14, 2005

a orquestra do Titanic não se afundou...

este homem escreve um texto lindo sobre a amizade. carlos: a amizade é, apenas, uma subida irreal ao colcorinho. saibamos ser dignos dos deuses - de sophia, de eugénio...
14 de março de 92

há 13 anos, avô, desceste ao pó inicial. foste um homem do século. amaste, muito, a avó. e, já agora, que ninguém nos ouve, outras mulheres. fizeste filhos, e netos, e bisnetos. meu caro: naquela noite, havias morrido há meia hora, estivemos, sós, durante alguns minutos. vi o teu rosto lindo e, finalmente, sem um sofrimento atroz. vi a tua vida, nesses minutos; relembrei os meus dias felizes de 70, 71: íamos para o campo, a terra cheirava a terra, a chuva acontecia no Outono e Inverno: tudo parecia eterno - aos meus olhos de criança. nunca esquecerei, avô, esses dias; nunca esquecerei, igualmente, o beijo que deste à minha filha um dia antes da tua morte: nesse momento, percebi que passavas o testemunho...

avô: a avó também já faleceu. os dias continuam cinzentos. o teu neto carlos continua como tu: afinal, sempre desejaste ser feliz...

quinta-feira, março 10, 2005

2046

o lugar do amor impossível - acreditamos nele e, simultaneamente, regressamos ao lugar da morte - da ausência.
é esse lugar que amamos - embora sabendo que jamais o alcançaremos.
mas a procura persiste - em 2046, lugar não-mensurável...
veneza

nesse mar de veneza amar-te-ei longamente
na aurora do sol primeiro cantarei
a memória do tempo feliz

terça-feira, março 08, 2005

irei a Veneza, só

no poema, o deus de sophia, solar, questionou a morte. a morte tem sentido em Veneza. não a morte vulgar, quotidiana, física; antes, a morte espiritual, da alma, do corpo transcendental. em Veneza, o deus de Sophia morrerá - porque assim são as noites dos tempos...
improviso sobre a mulher

do corpo
reinante transfiro
a pose de poder
para o teu centro demiúrgico
serás puta mãe deusa
o templo da sereia amada
dia(?) da mulher

a mulher resume-se a um qualquer dia festivo? dia dos namorados, dia da mulher, dias da estupidez vigente...

(as mulheres não merecem um dia: são seres da noite e da penumbra...)

segunda-feira, março 07, 2005

A vida do homem

Nove meses no fedor, depois nas faixas,
por entre crostras, beijocas, lagrimonas,
depois à trela, na andadeira, em camisinha,
pára-turras na testa, cueiros por calções.

Depois começa o tormento da escola,
o á-bê-cê, a vergasta e as frieiras,
a rubéola, a caca na cagadeira
e um pouco de escarlatina e de bexigas.

Depois o ofício, o jejum, a trabalheira,
a pensão a pagar, as prisões, o governo,
o hospital, as dívidas, a crica,

o sol no Verão, a neve no Inverno...
E por último - e que Deus nos abençoe -
vem a morte, e acaba no inferno.

Giuseppe Gioachino Belli
no futuro

no futuro, amei os deuses. amei o colcorinho da minha memória e rasurei o corpo de Sophia, no rasto do sol. nesse futuro, deslumbrámos o tempo e as fragas: vimos Torga quando fodia a camponesa nas serranias nevoentas - imaginando um poema escrito na aldeia de Eugénio. confesso: quando o futuro me aconteceu, vi os putos de quinze anos devorando o mundo, beijando-se furiosamente.
no futuro, o sol esteve presente no mar arenoso do corpo de Al Berto.

domingo, março 06, 2005

dos dias (e)ternos

desses dias
a memória me guarda
a asa do pedro e a sua noite
levam-me aos fundos do templo
seria o mar luminoso do texto de sophia
se a merda do amor não existisse
claro, restam as noites
e os feridos pássaros

(a carlos gama - ainda, e sempre, um amigo...)
Poesia é acto

Poesia é acto
de afirmação. Afirmo
que vivo e que não vivo só.

Poesia é futuro: pensar
na próxima semana, em outro país
e em ti mesmo quando velho.

Poesia é minha respiração, empurra
meus pés às vezes hesitantes
sobre a terra que pede movimento.

Voltaire acometido de varíola
salvou-se ingerindo entre outras coisas
120 litros de limonada: isso é poesia.

Ou então a ressaca. Quebrada
nas rochas não se deixa derrotar,
refaz-se: e isso é poesia.

Cada palavra que se escreve
é um atentado contra a velhice.
Afinal a morte vence, isso é certo,

mas a morte é apenas silêncio na sala
depois de ressoar a última palavra.
A morte é emoção.

Remco Campert

(homenagem a Nicola Calipari - cidadão italiano assassinado pelo rato texano...)

sexta-feira, março 04, 2005

carta a Jéssi e Nicole



minhas filhas

há um ano, neste espaço, o pai escreveu uma carta. falava de sentimentos, amores, uniões eternas. pressinto que, futuramente, ireis comigo ao Colcorinho. nesse monte, onde os deuses se amam, vereis o mar, o céu, o Futuro: vereis que o pai vos ensinará coisas simples, doces e ternas. penso que esse dia não estará longe... - contudo, se por qualquer motivo, não vos puder acompanhar, ide, subi esse pico - então, compreendereis o pai, as suas lutas, os seus amores, a sua solidão imensa...

um beijo do pai...

carlos
canção a Neruda

desculpe a ousadia Neruda
mas as coisas são assim
escrevo na folha branca na cidade branca
desejo fazer amor com a sua poesia
Neruda meu caro poeta de amores múltiplos
escreva sobre o sol e o sal e o mar
faça amor com as palavras
é suficiente o pedido Neruda
os deuses são seus meros servis
assim de Pedro e Inês
naquele agosto de corações unidos li Neruda no corpo de uma deusa
esfacelei a água o porvir
fui feliz
sem título

raramente falava de si
não devorava os montes e os deuses
na manhã clara vivia o doce orvalho
rumorejava a areia de sophia
sentia felicidade por amar estas palavras simples
da poesia e da vida
sentia esses princípios eternos ternos

quinta-feira, março 03, 2005

da vida e da poesia

há almas que escrevem poemas, textos, prosa. depois, não vivem segundo os escritos. são estafermos e mentirosos. não são artistas: a arte não fica na folha branca - é a nossa vida, é o texto-poema vivido, vivenciado. como eugénio viveu durante décadas: a luminosidade, o rigor, a brancura, o sol orvalhado, são a sua vida - não apenas poemas sem conteúdo. por isso, não acredito nos académicos e nos artistas(?) a pacote/quilo: encomendas, subsídios, contratos, apenas no funcionalismo público...

Pessoa e Eugénio são poetas; o academismo inconsequente faz parte de outro reino...

terça-feira, março 01, 2005

Campo de Amor
(Canção)

Se eu morrer, saibam todos que vivi
a lutar pela vida e pela paz.
Quase não pude com a pluma sempre,
aplaudam meu cantar.

Se eu morrer, será porque nasci
para entregar o tempo aos que vêm atrás.
Confio que entre todos deixaremos
o homem em seu lugar.

Se eu morrer, já sei que não verei
tangerinas jamais, nem o trigal.
Mas levantei o ancinho, isso me basta.
Outros hão-de crivar.

Se eu morrer, não me morram nunca antes
de a varanda vos abrir de par em par.
Uma criança talvez esteja a olhar
meu peito de cristal.

Blas de Otero
estes dias normais, na veneza futura

agosto é ali.
nesses dias, as pontes e os pescadores almejam os ventres.
na veneza vivida, no hotel por descobrir, amarei uma mulher e serei feliz.
um escritor falou de morte. de veneza.
são loucos esses temas.
contudo, esperam-nos...
nos lagos da memória

imenso e amoroso, este frio. eugénio é um habitante das estepes. desconheço se subiu o colcorinho. um dia, há muitos poemas, tê-lo-á conhecido: por ventura, escreveu um verso no pico sonhado. amoroso, este frio que inunda os versos e o amor...