quarta-feira, junho 29, 2005

balada para Eugénio

no tempo da luz
da poeira
saltava o corvo e
transgredia a sebe
iluminava a pele
o rio ausente

terça-feira, junho 28, 2005

desfile na Avenida

porque é que as opções sexuais de outras pessoas incomodam tantas pessoas?
que merda de liberdade é esta quando o politicamente correcto impõe a norma?
porque é que a merda dos bispos e padres tentam impor sempre a sua visão da vida?
porque é que duas pessoas do mesmo sexo não têm a liberdade de se amar?
quem sou eu para comandar o mundo a partir do meu umbigo?
é tudo uma questão de ética: não desejo organizar, estruturar, comandar, chefiar o cosmos; apenas quero ser livre, respeitando os outros.
é assim tão díficil respeitar o outro...?
improviso para o Ademar

no silêncio te demando as inquietações
sei que os dias correm vorazes
e que os pijamas sentem a nocturna face da Lua
no silêncio te inquieto
e aos putos do rio

segunda-feira, junho 27, 2005

o ademar é...

como eu serei aos cinquenta anos: livre, aberto ao cosmos, apaixonado. e deseja que toda a merda se foda - como eu desejo, aos trinta e nove...
Céu

naquele tempo imemorial
no tempo das cerejas felizes
amámos o Tejo e o sangue de Lorca
Torga passadas as fogueiras de Blimunda
questionou os teus olhos e os teus seios
Rose, Jack ouvem os acordes da imortal orquestra
e o Kilimanjaro da neve eterna clama por mim
agora Eugénio e Sophia morreram
o amor eterno jaz nos corações unidos


in my place

estou na net e ouço este tema dos coldplay.
estávamos em Outubro de 2002.
o olhar era lindo e presente.
hoje, vi choro e rejeição.
mas, mulher, in my place será sempre a nossa canção...
a recusa da felicidade, do amor,

a vida tem coisas errantes.
depois, ainda escrevo: quem recusa o amor é despido de coragem, envolve-se no manto cobarde da fuga.
eu assumo a minha paixão, o meu amor.
sou infeliz - mas quem disse que o amor é o reino da felicidade...?
e agora, João?

o meu amigo João, um queirosiano dos melhores e poeta dos sentimentos - ainda que não o assuma! - tem gozo em se desviar da paixão. no reino da Dinamarca, João, Pessoa existiria...? Damásio passará por aqui. eu, caro amigo, impulsivo e apaixonado, adoro ler-te - ainda que não concorde com as tuas reticências à apaixonante (des)ventura dos sentimentos...
70 anos

o meu pai faz hoje 70 anos.
nos aniversários, não se discursa.
olha-se e beija-se...

domingo, junho 26, 2005

eu não conheço o passado. eu não conheço o futuro.

não tive passado.
não terei futuro.
sinto-me como Pessoa, bebedor de litros de tinto nocturno e passagens etéreas, quase alvas.
também sei que vivo o presente.
e sei que não sou cobarde: sempre assumi os meus amores, as minhas posições radicais - aos 9, 19, 29, 39 anos.
não gosto de cobardias e meias-tintas: a vida deve ser assumida radicalmente, apaixonadamente. por isso, habito o céu infernal e o inferno celestial.
e, fiquem sabendo: quando vou ao Chiado, bebo sempre um copo com o velho Pessoa. ele olha-me e pensa: tens em ti todos os sonhos do mundo...
13 de Agosto de 2003

nesse dia, um meu amigo foi ao inferno. renasceu pelas filhas. não falo com ele há muitos meses - os acidentes da vida - virtuais...? - afastaram-nos. também não é importante. creio que o facto de o conhecer tão bem releva a distância.
carlos: tens duas filhas, como eu. aproveita os teus dias felizes. eu, meu caro, tenho, apenas, esquilos esvoaçantes na noite eterna...

sábado, junho 25, 2005

da passagem

a lenta passagem da tarde.
revejo os dias e os estios infantis.permaneço no teu regaço.
na noite ansiada, matarei os esquilos esvoaçantes...

quinta-feira, junho 23, 2005

redenção

faltam 36 dias...
coldplay

ouvi dezenas de vezes o álbum.
não há perfeição na arte.
mas toda a regra tem a sua excepção...
ministrices e geografia

os Açores não são Portugal.
serei português?
Portugal existirá?
e a ministra, existe?

quarta-feira, junho 22, 2005

memória

no passado, na ria de Delfos, criámos a visão do mundo: vimos, então, que o princípio do mundo aconteceu nos corpos.
hoje, vagueando nas lisboas sem tejo, vejo esse passado, esses beijos sem memória. ainda não fui ao túmulo de eugénio; habito-o com o poeta.
e, nas noites eternas, escrevemos o orvalho, o suor do orvalho do amor...

terça-feira, junho 21, 2005

manifestação, greve

Sexta-Feira, Lisboa: percorri as ruas do sonho e da esperança: milhares de pessoas que não se rendem - que dizem não!

quinta-feira, junho 16, 2005

e depois...

a espera.
a soturna presença dos dias.
a espera dos bailados de Ginger.
depois do amor...

e sentidas as noites
quão os moinhos de Quixote
nesta travessia do orvalho de eugénio
escrevo: foda-se!!!
as noites de antanho são o presente.
quero viver e morrer.

carlos cravo, junho, 2005,
dentro de muitos anos

há dias, há anos, li Pessoa.
li a Tabacaria.
e o dono da minha rua sorriu.
depois, vivi as noites da memória.
hoje, estou só.
porque deixas em mim tanto de ti...
improviso

das fragas da memória de Fevereiro
avançámos na porta de Granada
a espada
Céu
nos dias felizes de Kilimanjaro
socorre os orfãos das noites por rasurar
Céu...

o amor é eterno.
os dias de Eugénio transparecem nos teus seios, Céu.
a solidão e o choro são o nosso mundo.
adoro fazer amor contigo.
amo-te, eternamente.
no campo ausente.
no húmus do teu corpo.
no sol de Sophia... no sal de Eugénio...
luz

o dia é luminoso. amanheceu orvalhado. como nos dizeres de Eugénio. como nos seus versos eternos. Eugénio, hoje, é luz pura, inicial...
Sócrates, perigoso esquerdista...

o governo quer fazer dos professores parvos.
aquelas mentes não realçam o papel da greve enquanto direito constitucional.
por mim, caro engenheiro, nem que Cristo desça à Terra, Segunda-feira, farei greve.
ninguém é dono da minha consciência...

terça-feira, junho 14, 2005

Cunhal

Cunhal morreu. em 1975. no dia 25 de Novembro.
mas, confesso: gosto de homens assim: poderosos, arrebatadores, sonhadores, assumidos.
sal da terra (a eugénio)



hoje poeta

invades o sal da terra

na sofreguidão do sulco vegetal

onírico

constante na canção da tua mãe

invades a alma da terra

amas o sol

segunda-feira, junho 13, 2005

(urgentemente, Eugénio... )

É urgente o amor,
é urgente permanecer.
poema a Eugénio

também Sophia morreu no Verão
nesse tempo da infância luminosa
rasgos fulgurantes inocentes
o poema brota de ti
seiva inicial transparente
vou comer laranjas por ti

domingo, junho 12, 2005

The Hardest Part

lirismo.
voz.
mar de Sophia.
luz de lua lunar.
recorte de luz - luminoso.
amor numa noite de Eugénio...
À Beira de Água


Estive sempre sentado nesta pedra
escutando, por assim dizer, o silêncio.
Ou no lago cair um fiozinho de água.
O lago é o tanque daquela idade
em que não tinha o coração
magoado. (Porque o amor, perdoa dizê-lo,
dói tanto! Todo o amor. Até o nosso,
tão feito de privação.) Estou onde
sempre estive: à beira de ser água.
Envelhecendo no rumor da bica
por onde corre apenas o silêncio.


Eugénio de Andrade
Terror de te amar


Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa


Sophia de Mello Breyner Andresen
Um dia branco


dai-me um dia branco, um mar de beladona
Um movimento
Inteiro, unido, adormecido
Como um só momento.

Eu quero caminhar como quem dorme
Entre países sem nome que flutuam.

Imagens tão mudas
Que ao olhá-las me pareça
Que fechei os olhos.

Um dia em que se possa não saber.


Sophia de Mello Breyner Andresen
canção a Lorca

vão doces as tardes do rio
no fim do sol invadem a rua dos amantes
nos dias da infância na vereda do cume
da água do corpo por acontecer
o sul jazia na profundeza tumular
sabes amor rezámos uma canção a lorca
do final

os corpos entreolham-se. a cobardia é imensa. nunca serás feliz, mulher. tens medo do mundo e de amar. também tens medo do sol de Sophia e do orvalho de Eugénio.
no fundo, tenho pena de ti - nunca serás feliz porque tens medo de viver a paixão do amor, o amor da paixão.
não és do mundo de Sophia - a deusa da areia solar...
Coldplay

não consigo deixar de ouvir o novo álbum.
Fix You, The Hardest Part, A Message, White Shadows: lirismo puro: The Smiths pairam por aqui.
os anos 80 não morreram...
pretos e outros pretos

os pretos atacam em Carcavelos.
os brancos atacaram, atacam, em África.
dos pretos de diversas cores, se constrói a violência.

sexta-feira, junho 10, 2005

do amor

o amor é o tempo sem espaço. confirmo: é viver o tempo sem o habitar espacialmente; não é mensurável, questionável e tragável: é o puro erro do, e no, Sul luminoso. os amantes não habitam, pois, qualquer sítio - apenas existem enquanto seres fazedores do destino e de destinos.
Pessoa, quando amou Ophélia, sabia estas coisas.
do vazio

elegia: a vidente trepou a cerejeira. rebolou na manta e definhou no vazio.
longe, no Santo Sepulcro, Madalena fazia amor com Jesus.
amor por laranjas, no dizer de Eugénio.
Sampaio - ou o tuga-presidente...

e ainda há quem fale do défice... que importância tem isso quando assistimos à condecoração da fanática Leonor Pinhão? este país não bateu no fundo - pura e simplesmente, não existe...
delícia pura

leiam o texto escrito em castelhano, aqui.
delicioso, de um humor sensível e inteligente.

quinta-feira, junho 09, 2005

as memórias são como livros escondidos no bosque...

a memória é presente: naquele dia, no Colcurinho, aprendi que o amor é eterno. pode acontecer, a ruptura - mas esta não apaga o amor.
a memória de um amor puro é a vivência desse amor; as pessoas têm medo da felicidade.
continuo a procura do meu livro, dos meus livros escondidos nos bosques emergentes...

terça-feira, junho 07, 2005

do teu corpo

rasura emergente
folheio fragas ulteriores
penetro o indizível
despeço-me da eternidade
devoro o pico sonhado
Momento


Chegado o momento
em que tudo é tudo
dos teus pés ao ventre
das ancas à nuca
ouve-se a torrente
de um rio confuso
Levanta-se o vento
Comparece a lua
Entre línguas e dentes
este sol nocturno
Nos teus quatro membros
de curvos arbustos
lavra um só incêndio
que se torna muitos
Cadente silêncio
sob o que murmuras
Por fora por dentro
do bosque do púbis
crepitam-me os dedos
tocando alaúde
nas cordas dos nervos
a que te reduzes
Assim o momento
em que tudo é tudo
Mais concretamente
água fogo música

David Mourão Ferreira
Inscrição estival


Ó grande plenitude!

E a tudo
a tudo alheio
saboreio.

Absorto
sorvo
este cacho de uvas
tão maduras...

Este cacho de uvas que é o teu corpo.

David Mourão Ferreira
Da sedução dos anjos


Anjos seduzem-se: nunca ou a matar.
Puxa-o só para dentro de casa e mete-
Lhe a língua na boca e os dedos sem frete
Por baixo da saia até se molhar
Vira-o contra a parede, ergue-lhe a saia
e fode-o. Se gemer, algo crispado
segura-o bem, fá-lo vir-se em dobrado
P'ra que do choque no fim te não caia

Exorta-o a que agite bem o cu
Manda-o tocar-te os guizos atrevido
Diz que ousar na queda lhe é permitido
Desde que entre o céu e a terra flutue-

Mas não o olhes na cara enquanto fodes
E as asas, rapaz, não lhas amarrotes

Bertolt Brecht
amores e interlúdios

naquelas tardes
procurámos o suor dos deuses
respirávamos então o sangue dos rios
das laranjas do poeta sabíamos notícias
os amores eram raros ausentes
quando Lorca escrevia na tarde sangrenta
os pássaros descreveram as mil voltas do Olimpo
aí ascendemos à eternidade
do cinismo

os tempos são do politicamente correcto.
as pessoas têm medo de se assumir, ousar, inventar.
desejam dinheiro, poses sociais, breves minutos de fama.
os outros, raros, emergem destes pântanos: circulam por fluidos emergentes, navegam nas águas de Sophia, nos orvalhos de Eugénio, nos Macondos de Gabo.
os tempos vão cínicos: os túneis, voláteis, serão os picos do Colcurinho...

segunda-feira, junho 06, 2005

Represas

memórias de um beijo: provavelmente, a mais bela canção de amor desta manhã...
poema para Jorge Palma

na merda do metro
enquanto te embebedavas e cantavas e outras coisas
eras livre como hoje
baladeiro maior filho do Zeca
morrerás certamente
escrever-te-ei então um poema de amor
confissão

sou professor.
não acumulo reformas.
sou sportinguista.
como vêem, só coisas boas...
a demissão de Sampaio

não ouve o boçal Alberto João. tem medo do cacique, certamente.
condecora a boçal Leonor Pinhão. tem medo do bom gosto certamente.
o verdadeiro défice, caro Presidente, é o ético e civilizacional: esta merda é cada vez mais a quinta dos Albertos...

sábado, junho 04, 2005

confusões

o carlos não percebeu o meu texto.
a minha tese não é prisioneira de sexo; o meu mundo é o Colcurinho, os afectos e as emoções: amor puro, primacial.
sei que entendes o que escrevo, carlos...

sexta-feira, junho 03, 2005

destino, colcurinho, e outras coisas...

na madrugada do passado Sábado tive um grave acidente de viação. desfiz um Honda, capotei e quase parti um poste da EDP. saí vivo e a andar - como se nada tivesse acontecido, dir-se-ia...
os meus cumprimentos à Honda e a Deus - Este, porque me salvou; aquela, porque constrói carros seguros, terrivelmente seguros...
agora, a parte mística do facto: no dia anterior, um apelo irresistível levou-me ao Colcurinho - esse pico único e eterno. acredito em Deus, Fátima, Fado, na Saudade e no Amor; acredito na Arte e em chamamentos imperdíveis; naquela tarde, só, no Colcurinho, pressenti que qualquer coisa de radical e único aconteceria proximamente. não me enganei...
apenas mais uma ideia: ouvir falar de um acidente é isso mesmo - ouvir. vivê-lo é uma experiência radical, mística e decisiva.
hoje, sou o mesmo homem; mas, nesta pessoa, convive outro homem que pensa que só vale a pena viver por valores essenciais; quem (sobre)vive com um medo terrível em ser feliz, porventura, chegará aos 80 anos - mas nunca citará Neruda: "confesso que vivi".
interrogação

porque é que algumas mulheres são imensamente estúpidas...?